Brasil - Está sem nada para fazer? Entediado? Aproveite para ler Joaquim Nabuco. É um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos. Foi um homem à frente de seu tempo. Lutou contra a escravidão numa época em que os espíritos “sensatos” e “ponderados” defendiam a manutenção da ordem escravocrata com argumentos do tipo “só os radicais defendem a abolição pura e simples” ou “precisamos pensar na estabilidade e nas conseqüências econômicas da libertação dos escravos”.

Autor: Juremir Machado da Silva*

As mentes “razoáveis”, mais exaltadas, chegavam a dizer que a abolição traria o caos. Nabuco, em “O Abolicionismo”, triturou essas falácias e ainda previu o futuro: os vestígios do escravismo e do racismo durariam muito.

Fazem-se sentir até hoje. Nabuco era homem de idéias claras e, em pleno século XIX, definia qualquer transação de seres humanos como crime, variando apenas o grau de crueldade. As mentes “equilibradas” aceitavam uma abolição lenta e gradual. Tudo deve ser lento e gradual no Brasil. Até o fim das ditaduras. Nabuco previu: “Essa obra – de reparação, vergonha ou arrependimento, como a queiram chamar – de emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do abolicionismo. Além dessa, há outra maior, a do futuro: a de apagar todos os efeitos de um regime que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores, e que fez do Brasil o Paraguai da escravidão”. Nabuco era branco e filho de senador do Império. Conhecia bem a sua casta.

Quando uma mulher negra ganha menos do que um homem negro, que ganha menos do que uma mulher branca, que ganha menos do que um homem branco, a “escola de desmoralização e inércia” continua funcionando e produzindo efeitos. Nabuco foi jornalista, historiados, jurista, diplomata, poeta e senador. Tinha uma cultura enciclopédica. Enxergava longe: “Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância”. Falava da ignorância dos senhores e alertava para a fossilização de uma mentalidade discriminatória, a qual, se não enfrentada pela educação, faria a obra da escravidão seguir adiante, “mesmo quando não haja mais escravos”.

A política de cotas é um mecanismo para quebrar a escola da desmoralização e da inércia e a fossilização da mentalidade discriminatória. Nabuco disse mais: “A política dos nossos homens de Estado foi toda, até hoje, inspirada pelo desejo de fazer a escravidão dissolver-se insensivelmente no país”. Diluir o racismo e a exclusão sem muito barulho nem medidas drásticas tem sido a política e o desejo de muitos. Não funciona. As cotas são políticas afirmativas para anular efeitos persistentes do passado. Como disse Nabuco, “o nosso caráter, o nosso temperamento, a nossa organização toda, física, intelectual e moral, acha-se terrivelmente afetada pelas influências com que a escravidão passou trezentos anos a permear o Brasil”. A exclusão é a face atual disso tudo.

* Publicado no Jornal Correio do Povo – Porto Alegre, 16 de janeiro de 2011, Página 2.